Uma visão poética da vida numa aldeia portuguesa

" Ao cair da tarde

Em todo o céu se apagou a refulgência de oiro, o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quase repele, agora apaziguado e tratável, ele derrama uma doçura, uma pacificação que penetra na alma, a torna também pacífica e doce e cria esse momento raro em que o céu e a alma fraternizam e se entendem. Os arvoredos repousam, numa imobilidade de contemplação que é inteligente. No piar velado e curto dos pássaros há recolhimento e consciência do ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos cansada e farta, e vai beberar ao tanque, onde o gotejar da água sob a cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a avé-marias. Em todos os casais se está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pejado de mato, geme pela sombra da azinhaga, E tudo tao calmo e simples e terno, que em qualquer banco de pedra em que me sente, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tao em harmonia com ela que não há nesta alma, tao incrustada das almas do mundo, pensamento que não pudesse contar a um santo. "
Eça De Queirós - Correspondência de Fradique Mendes

Este pequeno texto do grande vulto das Letras Portuguesas que foi Eça de Queirós retracta, com uma visão algo poética, um fim de tarde numa aldeia portuguesa, há cerca de 100 anos. Podia ser em Entrevinhas, entretanto, os tempos mudaram muito e os usos, costumes e tradições foram-se adaptando aos avanços da civilização, modificando, profundamente, o modo de vida das populações rurais, quer nos seus hábitos e relações sociais, quer na angariação da subsistência do dia-a-dia que, durante séculos teve por base a agricultura e a pastorícia, para além de algumas actividades artesanais que lhe serviam de suporte e que em muitos casos funcionavam como actividades complementares do rendimento das famílias e que, normalmente, não dispensavam para os artesãos que as realizavam, o exercício da actividade agrícola como garantia de subsistência. Nem tudo era bom na vida rural desses tempos remotos e muitos foram os trabalhos e sacrifícios dos nossos antepassados, para garantir a sobrevivência da família, com os precários meios de que dispunham, quer em termos económicos, quer em termos de educação, saúde, etc... Vale a pena, no entanto, recordar e recuperar algumas memórias desse passado que sendo distante no tempo, está as vezes mais próximo do que pode parecer a primeira vista, como é o caso das azenhas e moinhos de vento para moer cereais.

 

Voltar