Trilogia: Homem/Água/Vento

A produção de farinha, produto indispensável a alimentação, dependeu, no concelho de Sardoal, até há escassas décadas, da moagem em moldes artesanais. Esta era assegurada por instalações moageiras que aproveitavam energias naturais e que, consoante as fontes energéticas se repartiam por moinhos de vento e moinhos da água (azenhas). De facto, moinhos de vento e azenhas, no concelho de Sardoal, alternavam sazonalmente o seu funcionamento, rentabilizando e aumentando deste modo a produção de farinhas.

Aproveitavam-se, assim, os cursos de água no período de inverno e a energia do vento no período estival. Os moinhos de vento existentes na área do Concelho são do tipo mediterrânico, fixos, de torre, como em geral em toda a Estremadura e fazem mover o tejadilho - no sentido de procurar a melhor orientação das velas face ao vento. A localização dos moinhos de vento obedeceu ao princípio de aproveitamento de energia do vento a partir de cumes elevados ou flancos de elevações. Vestígios da sociedade pré - industrial (o mais antigo dos moinhos de vento de Entrevinhas foi construído na segunda metade do século XIX), os moinhos são, antes de mais, marcas na paisagem. Fossem torres cilíndricas pontuando a orografia ou azenhas implantadas na corrente das ribeiras, os moinhos marcavam com a sua presença física funções económica concretas e vitais para as comunidades em que se inseriam.

O desenvolvimento da moagem económica - e, mais tarde, da moagem americana - que permitiam uma melhor selecção dos grãos e diversificação das farinhas e a maior produção da taxa de farinha branca, aliado as inovações técnicas e a utilização de novas energias, nomeadamente o vapor e depois a electricidade, trouxeram a moagem tradicional, a partir do século XIX, os primeiros sinais de decadência que se prolongariam até quase aos nossos dias. No concelho de Sardoal, a decadência da moagem, artesanal reflectiu-se nos dois tipos de unidades referidas, 'sendo as azenhas as que continuaram a resistir até mais tarde. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento industrial da panificação retirava também a economia doméstica a exclusividade do fabrico do pão que passava a ser adquirido nas padarias.

Suprindo as carências da farinação das populações urbanas, as fábricas fizeram desaparecer a actividade moageira tradicional, ainda que as comunidades rurais tivessem continuado durante muito mais tempo a fabricar em casa o pão necessário ao sustento das famílias e, em consequência, a recorrer a moagem artesanal dos cereais. As mudanças havidas nas últimas décadas, no concelho de Sardoal e na aldeia de Entrevinhas, em particular, foram enormes, no que se refere a alterações de ordem demográfica, económica, ambiental, social e cultural.
Comunidades houve que em curtos espaços de tempo deram o salto de sociedades pré industriais para industriais e mesmo pós-industriais. Vestígios do primeiro tipo de sociedades, os moinhos de vento e azenhas (enquanto objectos a conhecer e interpretar) podem ser um contributo para o auto - conhecimento das comunidades e para a reflexão sobre, as mudanças do seu passado recente. Em tempo de coexistência de energias e quando se fazem estudos e experimentações sobre a utilização da energia eólica, os moinhos de vento podem constituir fontes de conhecimento e de sensibilização face a utilização da energia no nosso mundo.

 

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